sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

"O Intelectual Católico" - por Pe. Stanley L. Jaki

Por Pe. Stanley L. Jaki
Tradução: Wagner de Souza e Cristiano de Aquino


      A expressão "Intelectual Católico" parece supinamente ociosa, indicativa de alguma contradição. Não é ocioso escrever "católico" como "Católico" quando "católico" deveras corresponde a um juízo acerca do elenco universal dos valores e das realidades? E pode tal juízo verdadeiramente convir, se não for também um trabalho do intelecto?  

O aparente conflito entre "católico" e "Católico" vai especialmente incomodar os intelectuais que tomam as idéias e não os fatos como seu ponto de partida. A consideração dos fatos tem certamente a precedência, desde que se tencione chegar a qualquer coisa tangível sobre os dilemas, deveres e expectativas dos intelectuais Católicos. Para qualquer destes, o mais relevante de todos os fatos será precisamente o primitivo uso e acepção do vocábulo "católico", palavra de origem grega.  

Por surpreendente que nos pareça, a palavra "católico" ocorre apenas aqui ou acolá pelos escritos dos antigos filósofos gregos. Enquanto Aristóteles, por exemplo, amiúde usa o advérbio "kath'olou" (de um modo geral), nunca usa entanto a sua forma adjetiva "catholikos" ou seus variantes femininos e neutros. A razão pode estar no desdém que a todos os outros povos votavam os gregos, a quem eles jubilosamente agrupavam sob o termo "barbaroi". Os filósofos gregos tampouco esgotaram toda a lógica contida na idéia, amplamente cultivada entre eles, de que a mente individual seria apenas uma ínfima fração da mente universal em que era aquela reabsorvida após a morte do corpo. Pois, se tal fosse o caso, embora não fosse de origem grega, a mente de cada indivíduo deve ter tido um caráter verdadeiramente católico ou universal.

O erro em que incorriam os gregos ao ignorar isto estava, naturalmente, enraizado na sua incapacidade de enxergar para além da mente na personalidade de cada indivíduo. O infinito valor desta personalidade foi apenas revelado no Cristianismo. Na medida em que os cristãos abandonaram-se à evidência incontestável de Jesus Cristo, o Filho encarnado de Deus, completamente perceberam o que significava para o homem ter sido "feito à imagem e semelhança de Deus."  

Esta última expressão, tão inegavelmente hebraica em sua origem, não conseguiu revelar seu absoluto sentido católico no contexto da Antiga Aliança. Não significa isto que o Antigo Testamento não contivesse sugestões cada vez mais fortes sobre um futuro ou apogeu verdadeiramente católico. Mas muitas das dissensões entre Cristo e os judeus de sua época vieram à tona justamente sobre a questão de saber se deve o mundo tornar-se judeu, ou se deviam os judeus tornarem-se universais, ao menos em perspectiva, afim de cumprir um desígnio divino de salvação válido a todos. Era católico este desígnio porque era ele também Católico, isto é, ligado a um indivíduo muito específico, que, sendo um galileu, era muito singular, mesmo da perspectiva judaica.  
A universalidade da perspectiva cristã compendiou-se na célebre frase em que nos diz São Paulo que não era Judeu, tampouco Gentio, o Cristo, mas nova criatura. Visão supernamente universal ou católica do homem, esta implicava na convicção de que na natureza humana havia algo de universal ou católico. Por esta razão foi o racismo nazista denunciado pelo Papa Pio XI e Pio XII como uma total abominação. Em face deste racismo, os gurus darwinistas poderiam murmurar apenas alguns equívocos sobre a dignidade individual e a igualdade humana. É este um ponto que não pode ser ponderado longa, profunda e suficientemente pelos intelectuais Católicos, que não desejam regatear sua Catolicidade por esta miragem - curvatura cósmica em direção a um ponto ômega - denominada Jesus Cristo.
O primeiro uso cristão do termo "katholike" está consignado num conjunto de escritos: as cartas de Inácio de Antioquia que, considerando o fato de que em um curto espaço de tempo foram escritas (durante sua jornada como prisioneiro de Antioquia à Roma), tem grande coesão e unidade. O mesmo que primeiro nestas cartas usou a expressão "katholike ekklesia", ou seja, a unidade de todas as igrejas locais, com extrema clareza mostra-nos que as igrejas apenas existiam porque tinha cada uma delas um bispo que, por seu turno, representava o próprio Cristo.

Esta estrita síntese de catolicidade e individualidade num determinado ser humano, o bispo, demonstra que o entendimento cristão da catolicidade da Igreja significava desde o início algo muito diferente de um universalismo difuso. A catolicidade era para eles algo estritamente concreto, como todos os fatos e entes o são. A catolicidade tinha, outrossim, um centro que estava nitidamente expresso na consciência dos bispos que tinham o estrito dever de estar em comunhão uns com os outros, e que surgiu como resultado de uma união a um centro geral muito concreto. Estes dois desenvolvimentos são dignos de ser considerados por um momento, se ao menos os obtemos, como base concreta para avaliar o estatuto e os deveres do intelectual Católico.  

Não é preciso ser crédulo, é bastante ser um imparcial observador dos fatos, a fim de registrar algo que não tem precedentes na história: O surgimento repentino dentro do Império Romano, ou "oikumene", de centros de administração espiritual, eventualmente paralelos aos centros políticos de administração, totalmente independentes embora, e, de fato, por vezes, em feroz antagonismo para com eles. É este o pano de fundo da expressão "bispo diocesano", que evoca as principais áreas administrativas, ou dioceses. O sistema político breve encontrou um rival temível nesse novo conjunto de centros administrativos que tiveram um poderoso centro global em seu próprio país. Era, para o Imperador Décio, muito óbvio o que alguns estudantes modernos da Igreja primitiva relutam por reconhecer. São Cipriano cita-o em uma observação em que nos faz notar que, se não obtivesse ser imperador, gostava ser Bispo de Roma.  

Eram os Bispos, indivíduos concretos, estes centros particulares, cujo número passou de sete para cerca de oitocentos, tanto no Oriente e nas partes Ocidentais do Império ao tempo em que ascendeu Constantino. Em uma consideração meramente política, ainda que nada mais houvesse, Constantino não teve escolha a não ser fazer a paz com esta outra administração. Quando caiu o Império, sobreviveu a civilização porque esses centros espirituais, estranhamente, não foram aniquilados.  

Perspicazes historiadores da antiga Europa (é bastante lembrar-nos de Henri Pirenne) asseveraram a contribuição dos bispos como fonte de estabilidade cultural, mesmo no âmbito muito limitado de suas áreas de atuação. E quando volta-se um historiador para o tempo em que neste ou naquele país europeu viu-se a introdução de bispos, ainda que sem um vínculo nominal sequer com um centro Católico, pode ao menos notar um acentuado contraste entre dois tipos de bispos. O historiador que mais memoravelmente fez isso foi James Antony Froude. Sua observação é tanto mais significativa quanto tornou-se ele um agnóstico, depois de ter brevemente simpatizado com Newman e mesmo ordenar-se diácono na Igreja Anglicana. Em sua obra prima de doze volumes, por ocasião da Ordenança Isabelina, que estabeleceu uma nova hierarquia na Inglaterra, Froude fez a mais "Católica" das observações. Ele o fez de modo a descrever tal Ordenança tanto como a substituição de uma ordem essencial por sua mera imagem, a fim de "manter a ilusão" de que uma mesma seiva ainda fluia na grotesca contrafacção da velha árvore da sucessão ininterrupta dos bispos, quanto como pivô de uma catolicidade verdadeiramente Católica:

Um bispo Católico exerce seu ofício por um prazo insusceptível aos acidentes do tempo. Podem mudar-se as Dinastias, perderem nações sua liberdade, aluir-se pela torrente das revoluções o tecido firme da sociedade - permanece em seu posto o prelado Católico. E quando morre, outro toma o seu lugar; e quando inda uma vez as águas submergirem seus alicerces, a plácida figura é vista de pé onde antes postava-se. Mudam-se os indivíduos, enraizada inda está tal autoridade como uma rocha nos fortíssimos pilares do mundo. . . A Igreja Anglicana era um membro amputado ao tronco Católico. . . Se não o tivesse sido em sua essência, poderia manter a forma do que tinha sido, a forma que a tornou respeitável, sem o poder que a tornou perigosa. Esta imagem, em sua aparência, poderia corresponder a de seu tronco materno e, para sustentar a ilusão, era necessário fornecer bispos que parecessem ter herdado seus poderes pelo método consagrado, como sucessores dos apóstolos.(1)  

Froude observou, outrossim, que Cecil, o poder por trás Elizabeth, reuniu todos os bispos Edwardianos que sobreviveram ao reinado de Maria "para quantitativamente munir suas qualificações." Essas qualificações eram defectivas. Entre elas, a precípua era a incapacidade dos bispos de conhecerem a legitimidade de sua ordenação. Tal duvidosa transmissão do poder espiritual resultaria, contudo, em uma hierarquia que, de acordo com Froude, "se teria desintegrado em areia", tendo tombado Elizabeth. Obviamente, a inquestionável legalidade da ordenação dos bispos Católicos fora a razão pela qual, a despeito de todas as suas imperfeições individuais, proporcionaram eles o tipo de legitimidade que em permanência e estabilidade se traduz.

Qualquer que seja a deformidade individual dos bispos, que está a mídia ávida por alardear, o Colégio dos Bispos exibe a única força digna de respeito em um mundo moralmente decadente. A decadência começou nas mais desenvolvidas ou ricas bandas do mundo, que arrebatadamente se estão despedindo dos últimos sinais de sua herança cristã intelectual e moral. Os mais perspicazes protestantes notaram uma enorme diferença entre a sua situação e a dos seus irmãos Católicos. Enquanto acham-se eles, a mais e mais, sob o enérgico atrito das alternativas da moda, os Católicos ainda são recordados por seus imutáveis princípios eternos. A causa dessa diferença precisamente reside no fato de que os Católicos possuem bispos, ao passo que os protestantes não. Aqueles a quem os protestantes chamam de seus bispos o são apenas nominalmente. Um bispo luterano ou um metodista, e com muito mais razões um calvinista ou um Baptista, é um conceito para o qual não pode assegurar legitimidade alguma sua origem ou teologia, ao menos não mais que à quadratura do círculo pode conceder um matemático.  

O que alguns protestantes, pesarosos de não terem bispos tal como definidos por uma tradição de dois mil anos de idade, não compreendem é que têm bispos os Católicos não porque os fazem. É precisamente o contrário: são os bispos que fazem os Católicos . Os Católicos são crentes cuja fé é, essencialmente, uma submissão à voz de determinados indivíduos que se anunciam com a extraordinária alegação de que com a autoridade do próprio Cristo dialogam, e continuam a fazê-lo por dois milênios depois Dele. Isto afirma porque vêem sua autoridade como algo que lhes foi transmitido por indivíduos que, por sua vez, a mesma afirmação fizeram em seu tempo, retrospectivamente até os Apóstolos. Estes, decerto, não silenciaram sua convicção de que eram os depositários da autoridade do próprio Cristo e, portanto, de que era indivisível sua autoridade.

Era, desde o início, muito forte a consciência da necessidade de coesão estrita entre os bispos. Este é um ponto sobre que o intelectual Cristão jamais refletira o bastante, uma vez que permaneça no seio das Academias onde dissensão - e, amiúde, dissensão em razão de mais dissensão - de bom grado passa por aprendizagem e originalidade. Nada, com mais flagrante vigor, corrobora a força da consciência dos bispos que o fato (inda uma vez um fato), de que, desde os primeiros tempos, ao pecado de heresia olhavam como a um crime pior que a idolatria. Essa era a visão de Alexandre, mártir de Alexandria. No Ocidente, Sto. Agostinho ponderou que não há uma só razão que seja para quebrar a unidade da Igreja. Agostinho deu também profícua expressão para o critério concreto "tornar-se um com a totalidade" ou a "catholike". Ao dizer-nos que o critério consiste em tornar-se um com o atual bispo de Roma como sucessor de Pedro, primeiro bispo daquela cidade, Agostinho apenas repetiu uma célebre frase de Sto. Irineu, mártir de Lyon, acerca da obrigação de todas as igrejas de congregar em torno daquela Igreja.
Que não pronunciou Irineu qualquer coisa de "Ocidental" ou Latino, como deu-nos tal critério, está claro por duas razões. Um delas é que era Oriental Sto. Irineu. Lyon era um posto avançado dos gregos no coração do Ocidente. A outra é que Sto. Crisóstomo, o maior de todos os doutores da Igreja Oriental, foi talvez o defensor mais enfático da primazia de Pedro e seus sucessores. Este fato é uma pedra no sapato de todo "ortodoxo ecumênico", que não apenas se orgulha de ser intelectual, mas também de algo saber da verdadeira história da ortodoxia oriental.

Cá, também, tem a história para a teologia a mesma importância que tem os laboratórios para a ciência. Trouxe-nos a História, em conexão com o vocábulo "católico", o único significado que seu sensato uso pode ter: deve ter alguma especificidade em sua generalidade. Aqueles que à palavra "católico" relegaram a uma vaga generalidade ou universalidade foram rejeitados pela história. Os desafios da história muito excediam a aptidão dos gnósticos que, contra o padrão de verdade que estavam ensinando concretamente os bispos autorizados.estabeleceram algumas preferências minuciosamente vagas para o critério de verdade católica ou universal. Repeliu a História a esotérica santidade dos cátaros e seus diferentes ramos, e vindicou as tangíveis normas de conduta tal como pregadas pelos bispos. A História inteiramente desdobrou o princípio de fragmentação que os primeiros protestantes em vão tentaram exorcizar a partir de seus pressupostos iniciais. A História abandonou os "velhos Católicos" precisamente porque estes recusavam-se concretamente rejuvenescer na Igreja sempre viva, que se não podia confinar a uma determinada quadra de sua história. Provaram-se miseravelmente destituídos de qualquer lógica aqueles que, muito recentemente, arriscaram o parecer duma "oposição leal", inda que tenham convencido a si mesmo e a outros derrotados espirituais.  

Aqueles cristãos que querem ser católicos, embora não Católicos, podem muito bem refletir sobre as lições de dois esforços para chegar a um universalismo que era católico, mas não Católico. Um deles, tendo mais de duzentos anos, está esquecido, não obstante muito instrutivo. Na verdade sua significação, por ninguém menos que Talleyrand, foi-nos transmitida. Talleyrand não era propriamente um exemplo de cristão, menos ainda de Católico. Era entanto bispo. Certa feita foi abordado por Larevallière-Lépeaux (1753-1824), membro da Diretório (Directoire Executif de la République Française), que inutilmente pensou e tentou propagar uma nova religião, chamada de "Theophilanthropia". Ao ser informado pelo fundador da nova religião, que perfeitamente parecia condizer com os ditames do intelecto puro, que este não obteve prosélitos, Talleyrand comentou: "Não acho surpreendente seu fracasso. Se quiseres prosélitos, faça milagres. Cure enfermos, ressuscite os mortos, permita-se crucificar e ressuscite ao terceiro dia. "  
Uma vez que, sobre a entrada de todos os departamentos de teologia "cristã", increveu-se esta observação, e que cada novo conjunto de professores começa, em todos os assuntos, por reinventar a Igreja de acordo com novos modelos de fantasias intelectuais, pode-se extinguir com a esperança de qualquer benefício, tanto quanto com a lição de qualquer esforço. Isto pode ler-se no ensaio "Reflexões sobre o Catolicismo", escrito cerca de cem anos atrás. É possível que encontremos jamais uma mais avassaladora celebração estilística do catolicismo. O autor do ensaio tudo exigiu nobre. Tampouco insistiu que uma mesma pessoa deva ser a encarnação de todas as virtudes e perfeições "católicas". De fato, advertiu-nos contra tal excesso: "Somente a fantástica noção de que tudo devemos comer em cima duma mesa é que ao banquete faz parecer pesado." A mera lembrança do nome do autor desse ensaio, George Tyrrell (2), revela que o que realmente defendeu foi a liberdade de escolher na mesa do banquete católico de acordo com suas próprias preferências, e, se necessário ou desejável, se não alimentar de itens que saibam a Catolicismo. Estes itens pairam acima de todos os maiores e, aparentemente muito singulares, fatos da história da salvação.  

Cerca de cem anos mais tarde, depois de uma sistemática má interpretação do que representou o Concílio Vaticano II, o presidente da Conferência dos Bispos Católicos Americanos advertiu, em conexão com a visita do Papa, de que "não é um supermercado a Igreja, onde são livres para tomar ou dispensar o quer que seja os Católicos."(3) Comparado com o que disse Tyrrell, são muito triviais estas palavras, de fato. Mas precisamente por isso elas devem estar ao alcance de todos os intelectuais Católicos, especialmente daqueles que se orgulham de ser teólogos e, amiúde, mais preparam-se com retórica que com rijos pensamentos e respeito aos fatos.  
Intelectual ou não, Cristão ou não, o intelecto de submeter-se aos fatos, e não o contrário. É este um ponto de suma importância se sensatamente discorremos sobre a situação e as responsabilidades dos intelectuais Católicos. O Catolicismo significa, acima de tudo, render-se ao mais momentoso fato da história, Jesus Cristo, ou a carne e o sangue, e portanto, à mais singular realidade (Católica) da encarnação do Filho de Deus. Entretanto uma parte deveras importante daquela realidade consistia em Sua intenção de ministrar com universal autoridade e, em todas as provações, a ver perpetuada. Portanto, a submissão, a Cristo, do intelectual Católico deve ser precedida de uma submissão àqueles que, hoje, são a concreta voz da autoridade de Cristo, que estritamente outorga o Magistério. Só então o intelectual Católico dá início à tarefa de desdobrar as implicações conceituais da realidade da Encarnação para uma compreensão do Catolicismo em toda a sua essência.  

A tarefa é indubitavelmente vasta. A sensata abordagem desta tarefa seria começar com as claras definições derivadas deste ensino oficial. Isto pode entanto em nada resultar numa época temerosa de definições, embora orgulhosa de seu intelecto. Orgulho que sempre cega e a torna inda mais vulnerável. É bastante lembrar-nos o conselho que um eminente professor de filosofia deu a um jornalista pronto para entrevistar Jacques Derrida, pai do desconstrutivismo. Aconselhou ao jornalista Dinita Smith não interrogar a Derrida, de imediato, acerca de sua definição do desconstrutivismo. "Faça-a de sua derradeira pergunta, porque os leva a um paroxismo ou raiva."(4) Tal admoestação é, infelizmente, também susceptível de aplicar-se a muitos intelectuais Católicos, que hoje relutam em dar a definição de alguns termos centrais em seu discurso sobre o Catolicismo.
Em lugar de definições, quiçá seja aconselhável começar com as considerações de fatos históricos. Um tal fato é o mesto privilégio de Roma, que permanece, na Cristandade, o único bastião leal e obstinado de todos os dogmas Cristológicos em nome dos quais tantos Católicos, sobretudo Atanásio, tiveram de fugir para salvar as próprias vidas. É suficiente considerarmos que nesta época de grandeza ecumênica a Igreja Católica muito tolerou a Kantian skullduggeries de Hans Küng, mas o deteve em sua senda "Católica" quando ele meteu-se com a compreensão oficial da Igreja acerca de Cristo como consubstancial Filho do Pai.  

Como um Kantiano, Hans Küng não tinha escolha, mas sentia que a fé Católica em Cristo muito restringia o âmbito do "catolicismo". A fé em questão certamente dá ao Catolicismo um tipo de vitalidade que sentido algum faz no nefasto mundo do apriorismo kantiano, onde os fatos pouco importam. Harnack errou em muitos pontos, mas provou ser um astuto intérprete da história, quando observou, um século atrás, que não fosse por esse dogma da consubstancialidade, o cristianismo rapidamente se teria transformado em uma obscura seita judaica. (5)

O intelectual Católico deve, portanto, sobretudo nutrir-se no episódio e no conteúdo da Encarnação como desde o início o foi entendido. Deve abster-se das releituras deste episódio, como feitas por aqueles que julgam a história como o desdobramento de um Espírito Absoluto, tal como o definia Hegel, não menos insuspeito que seu próprio espírito. Instruídos por Hegel, muitos tornaram-se ignorantes e dados a esse ridículo erro de à frente dos bois pôr a carroça. É preciso ainda que estudem a incrível má compreensão e má interpretação de Hegel quanto ao o exercício do intelecto na ciência à proporção em que, para isto, primeiro deve submeter-se aos fatos.  

Os intelectuais Católicos devem também perceber que nem inventou a si mesma a Igreja, nem sempre inventa a novos dogmas. A Igreja em Nicéia propôs a consubstancialidade não como uma sua inédita reflexão, mas como algo que tinha, com autoridade, de pregar, porque a Igreja já o havia feito, mesmo sem usar esta exata expressão. A consciência que tem hoje, a Igreja, de suas funções e competências continuamente baseou-se na convicção da mais recente geração de bispos em união com Roma de que estas lhes foram transmitidas por bispos anteriores que, por sua vez, nutriam a mesma convicção de lhes ter sido confiada uma autoridade extraordinária. Hans Küng, que tão eloqüentemente pregou sobre o Catolicismo como uma epítome do catolicismo, encontrou seu Waterloo quando, não Roma, mas os seus próprios bispos alemães forçaram-no a um confronto acerca de sua relutância em endossar os Concílio de Nicéia e Calcedônia. Para seu assombro, e isso mostra o quão mal ele compreendeu a história da Igreja (o que nos não deveria surpreender por parte de um kantiano que, como Kant, audaciosamente, tem a pretensão de prevenir o que deve ocorrer na história), os bispos alemães concordaram com a necessidade de ensinar em uníssono com Roma, marco da autoridade viva na Igreja.  

A face vívida daquela autoridade sobreveio com especial intensidade na reação de João Paulo II acerca da ordenação de mulheres na Igreja Anglicana. O atual Magistério, disse ele em sua Carta Apostólica, não tem conhecimento de se lhe ter sido confiado o poder de ordenar mulheres. Não foi porque o Magistério da Igreja tivesse insuficiente poder intelectual para revelar o conteúdo de algumas noções acerca das mulheres e sua ordenação, mas simplesmente porque não tinha conhecimento de se lhe ter sido investido este poder. E ao elaborar esta objurgatória, João Paulo II citou uma declaração muito semelhante de Paulo VI, seu antecessor, duas vezes removido duma corrente cujos elos remontam a Pedro, o chefe dos Apóstolos.

Esta analogia de uma corrente é de especial importância. A sucessão dos bispos, num colegiado, não é algo como a justaposição de elos em uma corrente, onde todos os elos se sucedem distintos, e independentes. Na sucessão do colegiado dos bispos os elos e as linhas se sobrepõem uns aos outros. Os Bispos não morrem todos ao mesmo tempo para serem sucedidos por um outro conjunto de bispos. Mesmo a sucessão dos bispos de Roma se dá num Colégio Episcopal contínuo, embora este último continue a ser um colégio apenas na medida em que se congraça com seu centro.

Um intelectual católico deve ter, como critério último de ponderação, um total e incondicional compromisso com a voz vinda de Roma como o único fator que o coloca em contato adequado com a verdade maior que é Cristo. Este contato se não dá por meio de especulações sobre a história, tomadas num sentido deveras anti-histórico, e que projetam modernos preconceitos no passado. Isto equivale a informar o espírito do indivíduo de hoje a fim de investi-lo duma autoridade superior a daquele que para si reivindicou toda a autoridade no céu e na terra e confiou aos Doze a específica tarefa de continuar com esta mesma autoridade. Estes, impondo suas mãos sobre os outros eleitos, deixaram claro, desde o início, que assumiriam a essencial tarefa de perpetuar essa autoridade, não como uma simples idéia, mas como uma realidade concreta, até o fim dos tempos. A principal incumbência dum intelectual Católico é regozijar com este fato, de assombrosas proporções, posto que lhe franqueia o acesso ao grande acontecimento, Cristo, a fim de que, em sua mais alta expressão, possa realizar a verdadeira atividade do intelecto, que é submeter-se aos fatos .

Eis a essência do que, em tempos mais sensatos, foi destemida e orgulhosamente denominada como lealdade a Roma. Nestes tempos cada vez mais confusos, nada se pode fazer de melhor que voltar a John Henry Newman para mostrar-nos algo das ramificações daquela lealdade. O que nos disse ele para sempre desmente a percepção, cuidadosamente nutrida, de que a Igreja é apenas uma outra forma de democracia, em que a maioria de votos, cuidadosamente manipulados por alguns com pronto acesso aos meios de comunicação, decide o que constitui a verdade, se ainda experimentamos a necessidade de verdade em tudo .

O trecho que vamos citar é uma nota que Newman anexou a re-edição de sua "A Via Media ou a Igreja Anglicana", como parte de suas obras completas. Aqueles que leram sua Apologia já sabiam que a principal razão para a sua conversão ao Catolicismo era a constatação de que a "Via Media" só existia no papel. Mas, para que ela não viesse ser mal interpretada, acrescentou a seguinte nota:

Direi, mas de passagem, que não devo, neste argumento, esquecer que o Papa, como Vigário de Cristo, herda estes ofícios e atos da Igreja mesma. . . O Cristianismo é, pois, ao mesmo tempo uma filosofia, um poder político, e um rito religioso: como uma religião, é Santo, como uma filosofia, é Apostólica, como um poder político, é imperial, isto é, Uno e Católico . Como religião, o seu centro especial de ação é o pastor e rebanho, como filosofia, as Escolas, como regra, o Papado e sua Cúria (grifo nosso) (6)

Tal lealdade, única entre todas, pois se liga a Cristo, deve, portanto, ter ramificações intelectuais que são verdadeiramente libertadoras. Uma vez combalido naquela lealdade, o intelectual Católico será tomado por dúvidas quanto a superioridade do Catolicismo, se considerado com fator cultural, sobre tudo mais. Inda uma vez, aqui, ouçamos a voz de Newman como a voz de alguém que muito combateu para derribar as ilusões e a imagem de uma Igreja que substituiu a salvação pela propriedade cultural; e para participar da verdadeira Igreja que, se parecia culturalmente inferior, fez, de fato, muito maiores contribuições para a cultura do que qualquer outra Igreja ou organização. Isto ele asseverou para o seu sobrinho, John R. Mozley, professor de matemática em Manchester, que, numa epístola, expressou sua estupefação, a seu famoso tio (que inda não era cardeal), pelo fato de como fora possível a uma tão prodigiosa inteligência voluntariamente cegar-se para os irremediáveis defeitos ​​da Igreja Romana:

Admito que o ensinamento da Igreja, que em suas exposições formais é divino, tem sido, por vezes, pervertido pelos seus funcionários, representantes e súditos, que são humanos. Admito que se não fez o bem tanto quanto se poderia fazê-lo. Admito que, na sua ação, que é humana, é um justo alvo para críticas ou acusações. Mas o que eu afirmo é que ela tem feito uma incalculável quantidade de bem, que tem feito o bem de um especial modo, como nenhum outro governo histórico, docência ou culto o fez, e que este bem resulta de seus princípios professados, e que suas lacunas e omissões resultam de um descuido ou um abandono momentâneo destes princípios. (7)
Esta passagem exige uma reação bem distinta. Por um lado, seria correto inferir que é dever do intelectual Católico investigar tal incalculável quantidade de bem. Ademais, estaria correta ao acrescentar que deve ele convencer-se de que existe o bem em questão e, portanto, vale a pena o esforço de descobri-lo e trazê-lo à plena luz do dia. Ele deve também reconhecer que "a descoberta favorece a mente preparada"; frase adequadamente cunhada sobre as condições sobre as quais se realizam as descobertas científicas.  
Por outro lado, essas considerações não implicam que os intelectuais Católicos apenas se qualificam como Católicos por trabalharem sobre temas especificamente "Católicos". Um intelectual Católico permanece não apenas um intelectual, mas também um Católico, se ele ou ela investiga temas puramente naturais. A maioria das áreas de investigação são de tal ordem. Isto é deveras evidente quando se considera, por exemplo, a grande variedade de pesquisas disponíveis nas ciências naturais. A maioria dos ramos da ciência não levantam os tipos de questões fundamentais que tocam os fundamentos da epistemologia e, conseqüentemente, da metafísica. Mesmo na física de partículas fundamentais e em cosmologia científica muita pesquisa pode ser feita sem nunca deparar a questão sobre o estatuto ontológico do verdadeiro momento primeiro e sua relação com a origem do universo, ou a criação de toda a matéria a partir do nada. O intelectual Católico escarnece de seu Catolicismo se admite jogos conceituais com a Criação, tão caros e fomentados pela interpretação de Copenhague da mecânica quântica.
A questão de que se é possível saber se há um universo, que Kant desqualificou como um produto bastardo da ânsia metafísica do intelecto, está continuamente posta diante todo e qualquer cosmólogo. Não será contornada substituindo-se o termo "universo", esta entidade católica na medida em que representa a totalidade das coisas, pelo termo "multi-verso", que é uma máscara verbal para legitimar a incoerência cósmica, uma perspectiva certamente anticientífica. Em um nível diferente, o trabalho em biologia, especialmente na genética, revela cada vez mais flagrantemente questões que são éticas, nesse sentido supremo em que a ética se relaciona com o âmago católico da personalidade.
Um intelectual Católico deve estar pronto para enfrentar essas questões num sentido genuinamente Católico. E se não adquiriu a capacidade de lidar com essas questões, ele ao menos deve ter a vívida convicção de que respostas Católicas lhes podem ser dadas e de que, de fato, foram dadas amiúde. E, mais importante, o intelectual Católico não deve sacrificar a verdade dessas respostas em função de seu prestígio junto à academia secular, que é nulo na maioria dos casos.  

Um intelectual Católico deve estar pronto para nadar contra a corrente que contra ele fluirá até o fim dos tempos. Ele não deve sonhar com uma nova Idade Média, em parte porque aqueles tempos eram, de muitos modos, muito medíocres, e em parte porque a história não pode repetir-se. Utopia e história são noções mutuamente exclusivas. Ele meditará jamais o bastante acerca duma afirmação amiúde negligenciada nos Documentos do Concílio Vaticano II sobre a impiedosa luta entre a Igreja e o mundo, uma luta que nunca terá fim. Ele está, é claro, totalmente qualificado para indagar-se sobre a estranha desproporcionalidade entre esta luta gigantesca e sua breve menção naqueles documentos.  

Ele deve estar pronto para reconhecer as oportunidades de pesquisa Católica em seu próprio campo. O caso de Pierre Duhem (1861-1916) permanece o mais instrutivo. Ele não sonhou com o que eventualmente estava prestes a descobrir quando começou a procurar a origem histórica do princípio das velocidades virtuais, pedra angular da ciência do movimento. Não tencionava senão mostrar-nos que historicamente a Física consistia tão-somente na economia sistemática dos dados, medições, e, portanto, permanecia inepta para comunicar-nos qualquer coisa acerca do estatuto ontológico, muito menos metafísico do real.  

Isto não sugere que uma vasta elucidação deste ponto não contivesse uma grande visão libertadora - a expectativa de eliminação, de uma vez por todas, do espectro do cientificismo. Mas quando Duhem descobriu que fôra na Sorbonne medieval que a prima alusão ao princípio foi concebida, ele não hesitou em colocar tudo de lado. O resultado foi a descrição, numa dúzia de grandes volumes, da origem Cristã medieval da ciência Newtoniana.  

O próprio Duhem, um ferrenho e devoto Católico, desde a infância, deu-nos um inestimável relato de sua odisséia intelectual em seu ensaio, "A física de um crente", que deveria ser leitura obrigatória para todos os intelectuais Católicos, cientistas ou não. Talvez a leitura meditativa sobre aquele ensaio lhes dê a inspiração para colocar uma grande quantidade de coisas de lado quando uma mesma oportunidade, remotamente similar, se lhes surja diante dos olhos minuciosos.

Mencionei Duhem em parte porque no trabalho de sua vida encontrei, combinando o dever de um físico, de um historiador e filósofo da ciência e de um artista, uma verdade e uma inspiração Católicas em mais de um sentido. Certamente inspiradora é sua resolução de não ser desencorajado pelo sistemático desdém que lhe votou a academia secular, durante e depois de sua vida. Ele a conservou, obtendo enorme satisfação ao receber a notícia sobre o conforto intelectual que estudantes e pessoas das universidades Católicas encontraram em seus escritos.

O fato de que alguns leitores não-Católicos de minha "A Relevância da Física" e das minhas "Leituras de Gifford", "A Via da Ciência" e os "Caminhos para Deus", encontrarem neles um grande estímulo para se converteram à Igreja Católica, continua a ser para mim muito mais precioso do que alguns prêmios de prestígio. Não que qualquer desses livros fossem de apologética em qualquer sentido. Eles eram meros apelos, como qualquer esforço intelectual deve ser, em nome da verdade.

Pois, se um intelectual Católico vexa-se ao fazer apologética nesse sentido, ele trai tanto sua inteligência quanto seu Catolicismo. Ele também rompe com sua ligação à longa cadeia de intelectuais Católicos, que começa com Justino Mártir, autor de duas Apologias que lhe custaram a vida. O próximo grande elo dessa cadeia foi a "Cidade de Deus" de S. Agostinho, uma aguerrida apologia em favor da cultura Cristã entregue, pois, à Igreja Católica. Ainda um outro grande elo dessa corrente foi a "Suma contra os Gentios" de S. Tomás de Aquino. Certamente, estes dois últimos trabalharam, outrossim, em muitos outros temas, incluindo a pura teologia Católica, mas eles consideravam a apologética parte essencial da sua missão Católica.

E o que dizer de Newman? Ele é, inda hoje, amiúde alardeado como o teólogo do Concílio Vaticano II. Esta é uma etiqueta realmente estranha, ao menos por uma razão: Newman freqüentemente ressaltava que não era um teólogo, mas, horribile dictu, um polemista! Em verdade, disse também que jamais perderia a oportunidade duma boa batalha! Sempre gentil com as pessoas, poderia ser cruelmente incisivo quando se tratava de princípios fundamentais. Não era um campeão da brandura "ecumênica" - moderno expediente com que prevenimos a que qualquer pessoa nos pareça um simples idiota, senão um anódino vilão intelectual.

Logo após sua conversão, Newman deixou claro que ele não queria mais perder tempo com essa miragem do Catolicismo, a Igreja Anglicana. Antes, no pináculo de sua vida, fez do combate ao pragmatismo agnóstico da moderna sociedade educada sua mais definitiva ambição. Sua Apologia era uma apologética pessoal. Sua "Grammar of Assent" inda permanece um egrégio tratado acerca de alguns temas epistemológicos elementares de que se deve curar para uma exposição efetiva da doutrina católica, na verdade, da Igreja Católica, para a mente moderna. Jamais olvidemos que a "Grammar of Assent" chega ao fim com um apelo em nome da Igreja Católica histórica, que para Newman foi a Igreja de Roma.

Esta Igreja era para ele o único meio com que se podia compreender o episódio da Encarnação do qual dizia que era, entre todos os dogmas, o mais difícil de aceitar. Entretanto, uma vez consagrados a esse dogma, quintessência do sobrenatural, não faz sentido, argüia Newman, repelir a manifestação concreta do sobrenatural tal como se encontra na Igreja Católica. Eis, pois, o porquê sempre aceitou, aí, com entusiasmo, milagres atuais. Indubitavelmente ouviu rumores sobre o milagre do sol em Fátima, no termos da observação de Paul Claudel de que Fátima significou uma "colossal intervenção do sobrenatural no mundo natural." (8)

Sob pretexto algum atenuaria Newman esse milagre, nem quaisquer outros, receando parecer "retrógrado" aos catedráticos de Oxford e seus equivalentes da Sorbonne, de Harvard, de Tübingen e de outros lugares. Pois sabia que, independentemente de seu refinamento intelectual, eles também faziam parte de um mundo tragicamente decaído. Os Intelectuais Católicos, muitos dos quais tornaram-se presas do falso otimismo duma tendência decisiva, ascendente, em direção a um ponto Omega mítico, fariam bem em meditar sobre "dicta" de Newman acerca do pecado original, que, de sua parte, algo dizia, embora "obiter dicta". Ele pronunciou aquelas "dicta" contra o pano de fundo de uma sociedade nominalmente Cristã para a qual o verdadeiro santo era o cavalheiro polido.

Se quer hoje o intelectual Católico um ordálio, é este o ordálio de Newman, que nunca se furtou ao desafio do que é verdadeiramente sobrenatural. E segue provocando, portanto, tal nenhum outro moderno intelectual Católico, os que julgam que por lidar com os desafios naturais, estão à altura dos desafios de uma revelação sobrenatural dada concretamente na Igreja Católica em sua plenitude. Muita alusão ao conteúdo de meu livro, "O Desafio de Newman" (9), uma coleção de doze ensaios meus publicados ao longo dos últimos dez anos sobre os vários aspectos do pensamento de Newman que lhe eram caros, embora, infelizmente, irrisórios para nós.

Finalmente, a todos nós, intelectuais Católicos, ávidos por indagar dos princípios do conhecimento e das noções elementares (e freqüentemente julgando que é inda possível descobrir a pedra filosofal) deve jamais esquecer-nos as sábias observações de Pascal: "Todos os bons princípios já foram ditos. O que resta é colocá-los em prática."(10) Prática significa realidade. No que se refere à prática do Catolicismo como uma proposição intelectual, deve iniciar-se a partir dessa realidade, extremamente estrita em muitos aspectos, na qual estava o próprio Cristo em sua realidade galiléia. É por isso que ninguém no mundo dos sábios lhe deu qualquer importância enquanto viveu, ou mesmo depois. De qualquer forma, rir-se-iam dele, como riu Domiciano quando alguns camponeses da Galiléia, parentes de Jesus, foram conduzidos a sua presença em Roma. Pareciam-lhe claramente como a encarnação do mais crasso atraso.  


Isso ilustra o supremo paradoxo do catolicismo. Na proporção em que está verdadeiramente relacionado com Cristo ele permanece incrivelmente específico, singular. Mas assim é qualquer entidade real e verdadeira, diferente das especiosas fábulas da imaginação; "católica" como pode parecer a muitos intelectos paroquiais que se orgulham de ser "católicos". O Verdadeiro Intelecto católico para sempre encontrará o timbre da verdade de que "católico" exige, reclama "Católico" como sua única garantia e justificação.




Stanley L. Jaki é um sacerdote beneditino húngaro e vencedor do Prêmio Templeton, 1987.



Notas

1 A. Froude, The History of England from the Fall of Wolsey to the Defeat of the Spanish Armada (1856-1870), vol.VII, p. 174. Esta obra monumental, estabeleceu Froude como um dos principais prosadores ingleses, alentando enormemente os preconceitos intelectuais contra a Igreja Católica. Daí o valor especial do testemunho de Froude.

2 Tyrell (1861-1909), um convertido ao catolicismo e, posteriormente, um jesuíta, foi excomungado quando rejeitou a condenação que Pio X emitiu contra o modernismo em 1907.

3 Arcebispo Pilarczyk, citado no The New York Times, 21 de setembro de 1987, p. 1 col.2.
4 Citado em The New York Times, em 15 de setembro de 1998. 
5 A. Harnack, History of Dogma, tr.EB Spears and J. Millar (London: Williams and Norgate, 1898), vol. IV, p. 43.
6 Prefácio à terceira edição, § 2, 10, ou p.XL na standard Longmans edition das Obras Completas.

7 Cartas e Diários, vol. 27, p.283. Carta de 21 de Abril de 1875.  

8 The opening words of Claudel’s introduction to Méditations sur les révélations da Fatima by Ch. Olmi (Le Puys: Mappus, 1944).Newman surpreender-se-i ao descobrir que uma leitura atenta dos relatos de testemunhas do "milagre do sol" resultou na conclusão de um milagre meteorológico colossal. Veja o meu livro, God and the Sun at Fatima (Deus e o Sol em Fátima) (Royal Oak, MI: Real View Books, 1998), 381pp.  

9 Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2000 viii + 323pp.
10 Pascal, Pensées.

Este artigo foi publicado originalmente na revista Catholic Dossier edição de janeiro / fevereiro de 2000 pp. 8-16

O texto em inglês pode ser lido clicando aqui

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